
Tomar um analgésico para aliviar uma dor de cabeça. Recorrer a um antibiótico guardado na gaveta ao sentir os primeiros sintomas de uma inflamação na garganta. Essas são situações comuns no cotidiano dos brasileiros e, ao mesmo tempo, hábitos que expõem pessoas aos riscos da automedicação.
Na prática, eles vão muito além de um efeito colateral passageiro e podem mascarar doenças graves, gerar intoxicações ou comprometer a eficácia de tratamentos futuros.
Portanto, entender quais são os perigos reais e como fortalecer o uso racional de medicamentos é um passo essencial para cuidar melhor da sua saúde e de quem você ama.
O que define a automedicação?
A Organização Mundial da Saúde define a automedicação como o ato de tomar remédios por conta própria, sem orientação especializada.
Isso inclui usar medicamentos que sobraram de tratamentos anteriores, seguir a indicação de amigos ou familiares ou até buscar orientação em sites, blogs, redes sociais ou mecanismos de inteligência artificial para definir qual remédio tomar.
Esse comportamento é, em parte, alimentado pela facilidade de acesso a medicamentos no Brasil e pela vasta oferta de informações online, que nem sempre são confiáveis ou aplicáveis à situação de cada pessoa.
A automedicação também é vista, culturalmente, como uma solução prática e rápida para problemas de saúde considerados “simples”. Eles vão de dores a sintomas gripais, entre outras queixas, inclusive mais graves.
Todavia, os números revelam uma dimensão preocupante dessa prática. Pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), realizada em 2022 com mais de 2 mil pessoas em 151 municípios brasileiros, apontou que 89% dos brasileiros se automedicam.
O mesmo levantamento mostra que a prática é mais comum em casos de dores de cabeça e musculares, gripes, resfriados e febre. Mas não é raro que esse hábito também esteja presente diante de sintomas de ansiedade, insônia, estresse e até no controle de peso, o que só eleva os riscos.
Não custa lembrar: no Brasil, somente médicos e cirurgiões-dentistas devidamente habilitados podem diagnosticar doenças, indicar tratamentos e receitar remédios.
Além disso, a orientação sobre como utilizar cada medicamento e como dispensá-los adequadamente, seja em farmácias ou em estabelecimentos de saúde, é obrigação do farmacêutico. Ao ignorar esses aspectos, o paciente assume riscos que muitas vezes não consegue dimensionar sozinho.
Quais riscos esse hábito oferece à saúde?
Os riscos da automedicação são variados e podem afetar diferentes sistemas do organismo no curto, no médio e no longo prazo. Entre os mais relevantes, associados a diversas classes de medicamentos, estão:
- intoxicações, que, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), provocam mais de 30 mil casos de internação por ano no Brasil;
- mascaramento de sintomas, pois quando um remédio alivia os incômodos sem tratar a causa, uma condição séria pode passar despercebida por mais tempo. Isso atrasa o diagnóstico correto e, consequentemente, o início do tratamento adequado, comprometendo significativamente o prognóstico;
- interações medicamentosas, uma vez que a combinação de dois ou mais medicamentos sem orientação pode anular o efeito ou potencializar reações adversas de forma perigosa. Esse risco é ainda maior em pessoas que já fazem uso contínuo de outros remédios para condições crônicas;
- reações alérgicas, já que todo medicamento possui componentes químicos que podem desencadear respostas inesperadas;
- resistência a antibióticos, pelo fato de que o uso incorreto ou incompleto de medicamentos desse tipo (seja na dosagem errada, no tempo insuficiente ou sem indicação) contribui para o aumento da resistência de microrganismos. Esse fenômeno é um dos maiores desafios da saúde pública global e compromete a eficácia dos tratamentos disponíveis;
- dependência química, considerando que alguns medicamentos, como ansiolíticos, soníferos e analgésicos opioides, têm potencial de causar vício quando usados de forma prolongada e sem controle médico.
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Como evitar os riscos da automedicação e fortalecer o uso racional de medicamentos?
O uso racional de medicamentos pressupõe que o paciente receba o medicamento correto, na dose adequada, pelo período necessário e ao menor custo possível para si e para a comunidade. Para isso, a orientação profissional é insubstituível.
No Brasil, o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos é celebrado em 5 de maio. A data busca reforçar o alerta sobre os riscos da automedicação. Mais do que uma data simbólica, o tema é urgente e permanente.
Nesse contexto, algumas atitudes práticas ajudam a proteger a saúde de toda a família em qualquer situação:
- sempre buscar orientação médica ou farmacêutica antes de tomar qualquer medicamento, mesmo aqueles vendidos sem receita, como analgésicos e antigripais;
- respeitar a prescrição médica, incluindo dose, horários e duração do tratamento;
- jamais interromper o uso antes do tempo ou alterar a dose por conta própria;
- não compartilhar medicamentos, mesmo que os sintomas pareçam idênticos aos de outra pessoa;
- ter cautela com informações de saúde na internet, uma vez que elas nunca substituem uma avaliação clínica individualizada;
- descartar adequadamente os medicamentos vencidos ou não utilizados em pontos de coleta especializados, evitando o risco de uso indevido e o impacto ambiental do descarte incorreto;
- manter um acompanhamento médico regular, especialmente para quem tem condições crônicas como hipertensão, diabetes ou doenças cardiovasculares. O monitoramento contínuo permite ajustes precisos na medicação com o respaldo necessário.
Em resumo, os riscos da automedicação são frequentemente subestimados e podem ter consequências sérias para a saúde. A comodidade de tomar um remédio sem consultar ninguém pode custar muito mais caro do que parece, tanto para o bem-estar individual quanto para a saúde coletiva.
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