
Anualmente, o oitavo mês do ano é marcado pelas campanhas em torno do Agosto Dourado, dedicadas à promoção e à valorização do aleitamento materno. A cor dourada representa o padrão-ouro (ou seja, a referência que não tem substituto) da nutrição infantil: o leite materno.
Mais do que uma data comemorativa, esse é um convite à reflexão, inclusive para as empresas. Para elas, a conscientização precisa ir além do calendário, já que a pergunta que muitas mães fazem ao retornar ao trabalho é simples e urgente: como continuar amamentando? E a resposta, em grande parte, depende do ambiente corporativo que as recebe.
O Agosto Dourado e a mensagem sobre a importância do aleitamento materno
O Agosto Dourado foi instituído no Brasil pela Lei nº 13.435/2017. A escolha faz referência à Semana Mundial de Amamentação, criada em 1990 a partir de um encontro entre a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Unicef (o Fundo das Nações Unidas para a Infância).
O cerne da mobilização se baseia no fato de que os benefícios do leite materno são amplamente comprovados. Ele tem toda a energia e os nutrientes necessários, protege o bebê contra infecções, doenças crônicas e mortalidade precoce, além de contribuir para o desenvolvimento cognitivo e fortalecer o vínculo entre mãe e filho.
Para a mãe, amamentar reduz o risco de câncer de mama e de ovário e favorece a recuperação pós-parto. Tudo isso reforça que essa não é apenas uma questão de bem-estar da mulher e da criança, mas também um aspecto relevante de saúde pública.
Na prática, a recomendação da OMS é que a amamentação seja exclusiva até os seis meses de vida e complementada até os dois anos ou mais, à medida que a criança é introduzida a outros alimentos. Esse intervalo é longo e atravessa, inevitavelmente, o período de retorno ao trabalho. E isso frequentemente se reflete nos números.
De acordo com dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), em 2019 a taxa de amamentação exclusiva em bebês de até seis meses alcançou 45,8% entre as crianças brasileiras. Embora tenha havido avanços, o patamar alcançado ainda está distante do ideal. Espera-se que até 2030 pelo menos 70% dos bebês estejam em aleitamento materno exclusivo nessa fase da vida.
É justamente aí que o Agosto Dourado serve também para lembrar que sustentar a amamentação não depende apenas da vontade individual, mas também de condições reais oferecidas por quem está ao redor: família, sistema de saúde e, de forma cada vez mais discutida, as empresas.
O que acontece com mães e filhos quando a licença-maternidade termina
A licença-maternidade no Brasil tem duração mínima de 120 dias, podendo chegar a 180 dias quando a empresa aderiu ao Programa Empresa Cidadã. Além disso, o artigo 396 da CLT garante à mulher, até que o filho complete seis meses, dois intervalos de 30 minutos ao longo da jornada para amamentar ou retirar o leite, sem prejuízo salarial.
Na prática, porém, esses direitos nem sempre são conhecidos ou aplicados com clareza. Some-se a isso o desgaste emocional do retorno, a adaptação a uma nova rotina e a culpa por se afastar do bebê.
Portanto, a retomada do trabalho representa um dos maiores obstáculos à continuidade do aleitamento materno. Estudo sobre o tema publicado em 2023 aponta que a inserção no mercado profissional é um dos principais fatores associados à interrupção do aleitamento materno antes do tempo recomendado. Entre os principais fatores estão:
- falta de apoio dos chefes e colegas de trabalho;
- a necessidade de local e tempo adequados para a extração do leite materno;
- a diminuição na produção de leite por fatores inerentes ao exercício profissional;
- ambientes insalubres de trabalho.
Assim sendo, é fundamental mapear as necessidades das mães que retornam ao trabalho, ouvir ativamente e ajustar os benefícios disponíveis. Tudo isso faz a diferença desde o primeiro dia após a licença.
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O possível papel das empresas no incentivo à amamentação além do período mínimo
Empresas que querem, de fato, apoiar a maternidade podem ir além do que é exigido. Algumas das medidas que fazem diferença concreta na rotina das colaboradoras envolvem:
- salas de apoio à amamentação, com espaços confortáveis e adequadamente equipados, permitindo que a extração do leite aconteça com dignidade durante o expediente;
- flexibilidade de horários, com condições negociadas para acomodar as pausas de amamentação ou a adaptação à creche;
- programas de transição no retorno da licença, com orientação sobre os direitos garantidos por lei e alinhamento entre a colaboradora e sua liderança antes da volta ao trabalho;
- auxílio-creche ou recurso similar, medida que reduz uma das maiores fontes de ansiedade das mães que retomam a rotina profissional;
- campanhas internas de conscientização, estendendo o tema também aos colaboradores homens, para que toda a equipe entenda e respeite esse momento.
Vale lembrar que esse cuidado não se aplica só às mães biológicas. Adotantes, pessoas trans que gestam e famílias em diferentes configurações também têm direitos garantidos por lei e se beneficiam de uma cultura corporativa mais acolhedora.
Acima de tudo, empresas que investem nesse tipo de apoio constroem ambientes mais produtivos, reduzem o afastamento por questões de saúde mental relacionadas à maternidade e fortalecem a retenção de talentos. Logo, o Agosto Dourado é um bom ponto de partida para essa reestruturação.
Aproveite e saiba mais sobre o pré-natal e por que esse acompanhamento na gestação é tão importante.






